Governança7 de março de 202612 min de leitura

    Smart Cities: tecnologia urbana ou novo regime de governança?

    Antonio Seixas

    Antonio Seixas

    Consultor em Finanças, Tecnologia e Transformação Digital

    Smart Cities: tecnologia urbana ou novo regime de governança?

    Como sensores, plataformas digitais e algoritmos estão redefinindo poder, dados e decisões nas cidades.


    Resumo

    O conceito de "cidade inteligente" tornou-se, nas últimas duas décadas, um dos mais influentes e contestados do urbanismo contemporâneo. Alimentado por grandes corporações de tecnologia, organismos multilaterais e governos em busca de legitimidade modernizante, o paradigma das smart cities promete eficiência operacional, sustentabilidade ambiental e melhoria da qualidade de vida por meio da digitalização massiva do espaço urbano.

    Este artigo analisa criticamente esse fenômeno a partir de duas dimensões complementares: a técnico-operacional, que examina o que as tecnologias de fato entregam e sob quais condições; e a tecnopolítica, que investiga quem se beneficia, quem é monitorado e quais relações de poder são consolidadas pela digitalização urbana.

    Com base em casos internacionais documentados, argumenta-se que a cidade inteligente não é um destino tecnológico inevitável, mas uma hipótese a ser testada em cada contexto. Seu sucesso depende menos da sofisticação das ferramentas e mais da qualidade da governança, da clareza dos problemas urbanos que se pretende resolver e da distribuição equitativa dos benefícios e riscos entre os diferentes grupos sociais.


    1. Introdução: O rótulo que precede a pergunta

    Poucas expressões do vocabulário urbano contemporâneo gozam de tamanha ubiquidade quanto "cidade inteligente". Prefeituras de todos os portes adotaram o rótulo como sinal de modernidade e competitividade. Grandes empresas de tecnologia criaram divisões dedicadas à gestão urbana digital, enquanto organismos multilaterais produziram frameworks e indicadores para orientar governos nessa transição.

    Diante dessa efervescência, é necessário formular a pergunta que o entusiasmo frequentemente suprime:

    A serviço de quem, com quais salvaguardas e sob quais arranjos de poder a digitalização urbana opera?

    A questão não é se tecnologias como sensoriamento distribuído, inteligência artificial, gêmeos digitais ou conectividade 5G são capazes de otimizar serviços urbanos — em muitos casos, são. A questão central é se essas capacidades técnicas se traduzem em benefícios distribuídos de forma equitativa, se os riscos são adequadamente governados e se a digitalização fortalece ou enfraquece a capacidade dos cidadãos de participar das decisões que moldam suas cidades.


    2. Três gerações em disputa

    O conceito de cidade inteligente não é estático. É possível identificar, com fins analíticos, três gerações paradigmáticas que coexistem no debate atual.

    Primeira geração — moldada pelas grandes corporações de tecnologia a partir dos anos 2000, tinha foco na eficiência operacional: otimização de tráfego, gestão de energia, iluminação e resíduos. Nesse modelo, o cidadão aparece essencialmente como beneficiário passivo de serviços otimizados.

    Projetos emblemáticos desse período incluem cidades planejadas como Songdo, na Coreia do Sul, e Masdar City, nos Emirados Árabes Unidos. Ambas ilustram os limites do urbanismo tecnológico quando desconectado de dinâmicas sociais reais. Songdo foi projetada para cerca de 600 mil habitantes e nunca atingiu essa escala. Masdar, anunciada como cidade de carbono zero, enfrenta custos de manutenção elevados e baixa diversidade social.

    Segunda geração — surge em resposta às críticas ao tecnosolucionismo. Influenciada pela agenda de sustentabilidade e pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, passa a incorporar dimensões ambientais e de bem-estar. Frameworks internacionais, como os desenvolvidos pela União Internacional de Telecomunicações, procuram integrar eficiência tecnológica com sustentabilidade urbana.

    Ainda assim, essa fase manteve forte dependência de plataformas tecnológicas proprietárias, enquanto o debate sobre governança de dados e privacidade permaneceu relativamente periférico.

    Terceira geração — ainda em formação, desloca o foco para direitos digitais, participação cidadã e soberania de dados. Diretrizes recentes da ONU-Habitat defendem que tecnologias urbanas devem ser instrumentos subordinados a objetivos coletivos previamente definidos pela sociedade — e não agendas tecnológicas autônomas.

    Essa nova abordagem reconhece uma realidade incômoda: apenas uma minoria das cidades possui políticas claras sobre uso de dados urbanos, transparência algorítmica ou mecanismos institucionais para contestação de decisões automatizadas.


    3. Promessas setoriais: o que a evidência mostra

    As promessas das smart cities não são inteiramente vazias. Há evidências consistentes de ganhos operacionais em determinados setores.

    • Mobilidade urbana: sistemas de semáforos adaptativos têm demonstrado reduções significativas nos tempos de deslocamento em cidades com infraestrutura digital adequada.
    • Gestão energética e hídrica: Barcelona reportou economias relevantes após a implantação de sensores e medidores inteligentes conectados a plataformas de gestão urbana.
    • Saúde pública: plataformas digitais de monitoramento epidemiológico demonstraram utilidade durante a pandemia de Covid-19.
    • Governança urbana: ferramentas digitais de participação cidadã ampliaram o alcance de mecanismos como orçamento participativo em diversas cidades.

    O problema não está na possibilidade técnica dessas soluções, mas em três lacunas estruturais:

    Lacuna de implementação — apesar da expansão de sensores e dispositivos conectados, apenas uma pequena fração dos dados urbanos coletados é efetivamente utilizada em decisões públicas.

    Lacuna de distribuição — benefícios tecnológicos frequentemente se concentram em áreas já bem servidas de infraestrutura, aprofundando desigualdades territoriais.

    Lacuna de governança — a maioria das cidades ainda não possui marcos regulatórios claros sobre propriedade de dados, privacidade, transparência algorítmica ou mecanismos de contestação cidadã.


    4. A economia oculta das cidades inteligentes

    Por trás das promessas de eficiência opera uma infraestrutura econômica raramente discutida nos discursos institucionais.

    Um dos modelos mais relevantes é o de Vigilância como Serviço (VSaaS). Em vez de adquirir equipamentos, cidades passam a contratar serviços baseados em nuvem que incluem monitoramento por vídeo e análise automatizada por inteligência artificial. Esse modelo reduz investimentos iniciais, mas cria dependência tecnológica de longo prazo.

    Outro risco estrutural é o vendor lock-in, ou aprisionamento tecnológico. Quando plataformas proprietárias controlam infraestrutura crítica — como sistemas de tráfego ou redes de monitoramento — a migração para outros fornecedores torna-se economicamente ou tecnicamente inviável.

    Há ainda a monetização indireta dos dados urbanos. Plataformas digitais acumulam enormes volumes de dados comportamentais: deslocamentos, padrões de consumo, uso de espaços públicos. Esses dados possuem grande valor comercial e podem ser explorados economicamente sem que isso esteja explicitamente previsto nos contratos públicos.


    5. Vigilância e limites da gestão por dados

    A dimensão mais sensível das smart cities envolve vigilância e poder.

    O conceito de capitalismo de vigilância, formulado por Shoshana Zuboff, descreve o processo pelo qual a experiência humana é convertida em dados comportamentais para fins de previsão e lucro. No ambiente urbano, atividades cotidianas — deslocamentos, uso de espaços públicos ou pagamentos digitais — passam a ser registradas e analisadas por sistemas algorítmicos cujos critérios raramente são transparentes para os cidadãos.

    O caso de San Diego tornou-se emblemático. Sensores instalados inicialmente para monitorar tráfego passaram a ser utilizados pela polícia em investigações criminais sem comunicação pública. O escândalo levou à suspensão do programa e à criação de uma das regulações de vigilância mais rigorosas dos Estados Unidos.

    O Centro de Operações do Rio de Janeiro (COR) ilustra a ambiguidade dessas tecnologias. O sistema demonstrou eficiência real na coordenação de emergências e gestão de crises. Entretanto, estudos apontam que a infraestrutura de monitoramento concentrou-se em áreas estratégicas para turismo e grandes eventos, enquanto comunidades periféricas permaneceram menos atendidas.

    Esse fenômeno é descrito por pesquisadores como datafication assimétrica: cidades que monitoram intensamente determinadas populações enquanto mantêm opacas as decisões estratégicas que as afetam.

    O uso de algoritmos de policiamento preditivo amplia ainda mais essas preocupações. Modelos treinados em dados históricos de criminalidade tendem a reproduzir desigualdades sociais existentes, direcionando vigilância justamente para populações já mais vulneráveis.


    6. Casos comparados: lições de sucesso e fracasso

    Barcelona representa um caso de reorientação estratégica. Após uma fase inicial fortemente influenciada por fornecedores tecnológicos, a cidade passou a adotar políticas de soberania digital, software livre e participação cidadã ampliada por meio da plataforma Decidim.

    Medellín oferece uma lição diferente: sua transformação urbana foi conduzida por políticas sociais, mobilidade e urbanismo inclusivo. A tecnologia digital entrou como ferramenta de gestão e transparência, não como motor principal da mudança.

    Em contraste, cidades planejadas como Songdo e Masdar City ilustram limites do urbanismo tecnológico. Embora possuam infraestrutura digital sofisticada, enfrentam dificuldades para gerar diversidade social e vitalidade urbana.

    O programa indiano de 100 Smart Cities demonstra outro desafio recorrente: a distância entre ambição tecnológica e capacidade institucional local para gerir projetos complexos e contratos tecnológicos de longo prazo.


    7. Riscos sistêmicos e condições de sucesso

    A análise comparada revela padrões claros.

    Fatores de sucesso:

    • definição clara do problema urbano a ser resolvido
    • capacidade institucional e continuidade política
    • integração com políticas urbanas mais amplas
    • governança robusta de dados e padrões tecnológicos abertos

    Riscos sistêmicos:

    • vigilância assimétrica de populações vulneráveis
    • normalização de infraestruturas permanentes de monitoramento
    • dependência tecnológica de fornecedores privados
    • substituição de decisões políticas por dashboards aparentemente neutros
    • riscos cibernéticos em infraestrutura crítica

    8. Rumo a uma governança urbana digital robusta

    Cinco princípios podem orientar abordagens mais responsáveis à digitalização urbana.

    1. Tratar a cidade inteligente como hipótese, não como destino. 2. Garantir soberania pública sobre dados urbanos, com padrões abertos e controle institucional sobre seu uso. 3. Priorizar experimentação incremental, com projetos-piloto avaliados antes de expansões em larga escala. 4. Promover participação cidadã substantiva, que influencie efetivamente decisões tecnológicas. 5. Reconhecer que inovação social é mais determinante que inovação tecnológica. Cidades que investem em sensores sem investir em habitação, saneamento ou educação não se tornam mais inteligentes — apenas mais monitoradas.


    9. Conclusão

    A evidência disponível sugere que as smart cities não são, por definição, nem panaceia nem distopia. São infraestruturas sociotécnicas que redistribuem capacidades de ver, prever e intervir no espaço urbano.

    A eficiência operacional e a conveniência digital convivem com novas camadas de vigilância, scoring e dependência tecnológica.

    Quando estruturadas a partir de problemas urbanos concretos, com governança robusta e participação cidadã real, iniciativas de digitalização podem melhorar mobilidade, gestão de recursos e resposta a desastres.

    Quando guiadas por marketing urbano, interesses imobiliários ou lógicas de extração de dados, tendem a produzir cidades mais mensuráveis — mas não necessariamente mais justas.

    A tese estratégica é simples:

    Cidade inteligente deve ser tratada como hipótese, não como destino.

    A pergunta central não é se a cidade será smart, mas a serviço de quem, com quais salvaguardas e sob quais arranjos de poder a digitalização urbana opera.

    O urbanismo do século XXI será definido menos pela sofisticação tecnológica e mais pela capacidade política de colocar privacidade, ética, equidade e participação no centro da rede.

    A cidade inteligente bem-sucedida não é a que possui mais sensores, mas aquela que utiliza a tecnologia para ampliar a capacidade de decisão coletiva de seus habitantes.

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